Entrevista com Carlos Nobre - A evolução do jornalismo e seu consumo


Cansaram um pouco do papo pseudo-cerebral, caros leitores? Perdão, caros, perdão. Mas, após toda essa verborragia especulativa, creio que a melhor coisa a se fazer seria conversar com alguém um tanto mais profissional do que eu.  Estou falando do ilustríssimo Carlos Nobre Cruz, formado em jornalismo pela própria PUC-RIO, em 1983. Em uma breve entrevista concedida  para esse blog, Carlos comentou sobre as mudanças que vieram em frente no jornalismo, com o advento das novas tecnologias.

E quando esse é o assunto, a pessoa que pode mais claramente exemplificar essas mudanças seria alguém que viveu em um meio antes dessas alterações, e continuou nele enquanto tudo mudava – afinal, tal indivíduo irá ter uma visão um tanto mais completa do que alguém entrando agora, não? Mas de qualquer forma – vamos em frente.

Carlos Nobre Cruz, Jornalista e Professor da PUC-Rio

O Imediatismo do novo mundo

O primeiro comentário feito por Cruz foi sobre a forma com qual a informação é retirada hoje em dia – mas especificamente, como quase tudo que consumimos, agora, é imediato, devido a existência de mídias sociais como o Facebook e Twitter sendo constantemente atualizadas com novos acontecimentos – em alguns minutos, um “furo”pode se tornar notícia velha.

Ele notou que uma das mais importantes mudanças que ocorreram no meio jornalístico seria o fato de que uma notícia, agora, não é mais “segurada” para a edição do próximo dia, já que devido ao alto índice de proliferação de informação, ela pode ser vazada muito facilmente – ou outro jornal pode simplesmente receber a mesma informação após alguns minutos.

Isso tem um resultado claro - o trabalho do jornalista se torna ainda mais “24/7” – uma conexão direta com múltiplas contas de mídias sociais é uma ferramenta necessária. Não é surpresa que várias empresas já andam buscando indivíduos que gerenciam essas mídias para que novidades não passem despercebidas.

A confiabilidade da notícia

Com esse conceito da informação e seu novo fluxo frenético, a conversa acabou sendo apontada para o estado da confiabilidade que o repórter tem nos dias de hoje – sim, meus caros, vamos  bater na velha tecla do fake news logo, mas primeiramente, vamos completar o raciocínio aqui. Não é apenas a facilidade de informação que causa esse fluxo que mencionamos, mas também, como aponta Cruz, o fato de que todo mundo tem algo para dizer, hoje em dia.

Segundo ele, a facilidade de exibição nesses novos meios dá a todos uma plataforma para com que eles possam contatar jornalistas – existe, hoje em dia, uma abundancia de fontes onde antes existiam, de certo modo, poucas. Todos querem expor os seus pontos de vista, e o que percebem como “verdade” – nas palavras de Carlos Cruz, a internet serve como uma ferramenta de empoderamento para o usuário.

E, enquanto isso é muito bom, a confiabilidade das fontes sofre com essa abundancia de informação. O jornalista apontou que essa é uma das razões atrás da criação de agências de checagem, como a lupa – mais do que antes, a fonte não é o suficiente.

Fake News – Uma onda, mas não uma onda nova.

É possível que todo mundo aqui – e seus bichos de estimação – estejam cansados de ouvir sobre o conceito de Fake News – e confiem em mim, caro leitor – estou cansado também. É algo que bate repetidamente em nossas cabeças. O Facebook e Twitter em si são locais de ampla proliferação dessas práticas, como vocês já sabem.

Obviamente, isso não significa que isso é algo novo – as pessoas mentem ou disseminam informações falsas já há milênios. Isso sempre foi uma preocupação do jornalista de âmbito moral.  Porém, tem que se observar que o conceito disparou em visibilidade nesses anos recentes – notavelmente na eleição presidencial dos Estados Unidos.

Carlos, em sua percepção aponta que esse aparente crescimento se deu pela profissionalização do Fake News. Segundo ele, na era mais “inocente” da Internet, alguns anos atrás, sites que tinham notícias falsas eram amadores de forma que era fácil perceber o seu status como um meio não oficial – banners que não funcionavam, um design excessivamente simples, links que não “linkavam” nada.

Porém, quando a Internet começou a amadurecer – o Fake News não se tornou mais um meio por qual uma pessoa poderia passar uma notícia falsa para um jornal apenas para se divertir – ele se tornou uma ferramenta para ser utilizada em estabelecer narrativas. Carlos afirma que ele não é mais algo feito por indivíduos, mas encomendado por empresas e políticos com objetivos específicos: A maleabilidade da informação se torna uma arma, ao invés de apenas uma forma de divertimento.

 Para Carlos, vivemos em nossa própria "Matrix", devido a alta maleabilidade da informação.

O usuário e a percepção da realidade digital

No final dessa breve analise sobre a informação, a atenção se voltou para o usuário – aquele que está consumindo essa informação, e, por sua própria parte, criando ela. Afinal, como ele interage – o que permite o Fake News em sua proliferação? Carlos Cruz apresentou a sua opinião da seguinte forma – a alteração que ocorre na percepção da realidade quando interagimos com o meio digital.

Ele classifica o meio digital ainda como muito novo – dessa forma, ele providencia uma forma de fascínio para os seus usuários, alterando a nossa percepção nesse meio. Ele fez comparações ao filme Matrix (1999) no quesito de que a realidade, no digital, é muito mais maleável do que no mundo real.
Cruz também comentou que depois de passar muito tempo nessa “percepção digital”, retornar para o mundo físico acaba por ser uma experiência desorientadora, devido a necessidade de adaptação – afinal, em geral, você não irá ver e interagir com mundo da mesma forma que você o faria com a internet, certo caro leitor?

Por fim, o que pode se notar é que os meios digitais estão em um constante processo de singularidade – serviços se aglomeram em uma única plataforma. (Os celulares hoje em dia são, essencialmente, computadores, quando á alguns anos atrás, eles eram os famosos “tijolos” que só ligavam e olhe lá.) – além disso, o digital está se incorporando ao real mais ainda, fazendo essa distinção se tornar um pouco mais borrada – basta olhar para a “Realidade Aumentada” como um exemplo disso.

Comentários

  1. Tive aula com ele na PUC, é um jornalista incrível! Adorei a entrevista principalmente por apontar esses dois contrapontos: do jornalista mais antigo, como o Carlos, e dos novos jornalistas com a tecnologia. Adorei!

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    1. É o que vale mesmo - a história do Carlos com trabalhos e estudos sociológicos é uma excelente forma de contextualizar tudo isso.

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  2. Grande mestre! Tive o enorme prazer de ter tido aula com ele, sabe muito!

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  3. Foi meu professor também. Grande entrevista!

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